16.9.03

A Suécia e nós. Porque haveriam os suecos de votar «sim» ao euro? Para perderem o controlo de uma parte da sua política económica a troco de nada?

Porque o problema da Europa nos anos recentes é que cada vez mais poderes são transferidos para instâncias não controladas democraticamente. Isto é péssimo, porque corrói a democracia nos diversos países que integram a União e não institui em contrapartida nenhum poder legitimado pelo voto à escala europeia.

Quando as coisas dão para o torto e os governos são interpelados pelos cidadãos, eles limitam-se a responder: «Isso não é connosco... Foi decidido pela União Europeia».

Em países de fraca cultura democrática, como o nosso, vamos papando acriticamente esta marcha triunfal do «projecto europeu», de modo que, mesmo quando as políticas se revelam manifestamente erradas, como agora está a acontecer, continuamos a atribuir os nossos males ao fado e limitamo-nos a chorar porque o rigor das regras do Pacto de Estabilidade só se aplica a nós. Passa-nos desapercebida a relação entre a causa e o efeito.

Mas é natural que na Suécia, com outras tradições de responsabilização dos poderes políticos, as coisas não se passem com essa facilidade.

Para que fique claro, não sou contra a Europa nem contra o Euro; bem pelo contrário, simpatizo com a ideia federalista. Penso que a via que tem vindo a ser seguida leva a sequestrar o poder de decisão dos cidadãos em proveito de poderes obscuros e não controlados. Se a França e a Alemanha são tratadas com especial benevolência quando violam as regras acordadas, não será exactamente porque o poder fiscalizador não tem que responder senão... aos governos da França e da Alemanha?

Este regime de marchas forçadas parece especialmente concebido para alienar um número cada vez maior de cidadãos da coisa pública e, por conseguinte, para desacreditar a democracia. O resultado está à vista.

A solução só pode vir da instituição de um verdadeiro poder federal europeu que resulte do voto popular. Àqueles que afirmam que, nesse contexto, 7 milhões de eleitores portugueses não contam nada, eu recordo que Bush ganhou as eleições por algumas centenas de votos na Florida (não discuto agora a legitimidade da contagem), e que os votos da Madeira têm frequentemente sido decisivos na política portuguesa.

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